Sistemas Sociais

Circularidade e Feedback

Neste post, apresentarei os conceitos de feedback  e circularidade, suas funções dentro dos sistemas, os tipos de feedback e o que cada feedback nos retorna, com esses conceitos em mente, temos mais uma grande ferramenta para a análise dos sistemas sociais.

Boa leitura!

Os problemas de hoje provêm das “soluções” de ontem

Quando temos algum problema, seja de qualquer natureza, podemos eliminá-lo, ou apenas deslocá-lo para o futuro.

Acontece que ao encontrar-mos uma solução, essa nem sempre é a ideal, pode parecer naquele momento, ou até por outros motivos circunstanciais a tenhamos escolhido, ou ainda apenas aplicando um modelo anterior  acreditando na ideia de que “funcionou antes, vai funcionar agora”, e a escolhemos. Porém se não escolhemos a solução ideal, teremos um retorno desse problema no futuro, retorno esse que virá com uma intensidade muito maior.

Outro ponto importante é que aquele que terá o problema no futuro, não será o que “solucionou” no passado.

Quanto mais você insiste, mais o sistema resiste

Esse processo sistêmico rege sutilmente todo e qualquer sistema,  infelizmente, raramente nos damos conta disso. Trata-se de um esforço que tem um retorno contrário ao nosso, embora pareça aliado, na verdade trata-se de um inimigo disfarçado, se não for descoberto a tempo, leva quem o sustenta a exaustão, ao fracasso, a derrota.

No cotidiano,  se percebermos bem, ele está presente em qualquer lugar. Podemos ter o exemplo de uma pessoa que está com acumulo de trabalho, num certo momento ela começa a trabalhar mais a fim de colocar suas tarefas em dia, ao perceberem isso, outras pessoas da empresa, começam a gerar uma demanda maior de trabalho para a pessoa, e isso nunca termina. Quanto mais ela trabalha para deixar em dia suas tarefas, mais serviço aparece, isso podemos chamar de Feedback de Compensação.

O comportamento melhora antes de piorar

Permite visualizar um bom resultado na aplicação de um programa social, mudança de hábito, esforço para resolver algo. Porém quando se trata de uma solução de baixa alavancagem,  ou seja, sem visualizar possíveis consequências,  teremos aí o Feedback de compensação. Naquele primeiro momento, estava tudo certo, mas a solução não foi a ideal, é só uma questão de tempo para que o problema  venha pior do que a primeira vez.

A saída fácil geralmente nos conduz de volta a porta de entrada

Ao utilizar um raciocínio não sistêmico, muitas vezes nos deparamos com problemas que vão surgindo a todo momento e tentamos solucioná-los com antigos métodos, crentes que funcionarão.  No entanto, uma saída fácil, pode simplesmente nos conduzir ao ponto inicial, com no exemplo do conto muçulmano, jamais o bêbado achará as chaves da sua casa, porque está confortável procurar ali em função da iluminação que existe,  porém a saída ao problema dele, está na escuridão, lugar menos confortável, e que muitos evitam de ir.

É uma questão apenas de perspectiva da situação, basta que troquemos os óculos para visualizarmos novas saídas.

A cura pode ser pior que a doença

Ao encontrarmos uma solução para um problema, essa pode vir a se tornar ainda pior para o seu criador. Uma pessoa que tenta aliviar seus problemas fazendo o uso de álcool ou algum tipo de droga, irá arcar com os custos de ter criado um um problema muito maior na sua vida. Isso se dá por falta de um pensamento sistêmico que prevê a solução rápida e imediata.

Mais rápido significa mais devagar

Muitas vezes não percebemos que todo e qualquer sistema, complexo ou não, tem um ritmo natural de evolução. Quando forçamos esse ritmo, o sistema nos dá como resposta, uma forma de compensar isso.  Possivelmente teremos sérios problemas com essa compensação, porque algo será prejudicado com essa redução compensatória. È necessário que o ritmo seja crescente ao ponto de manter o sistema em harmonia com todos os componentes desse sistema.

Causa e efeito não estão intimamente relacionados

Um grande erro sistêmico é achar que causa e efeito andam praticamente de mãos dadas.  Não é verdade que isso acontece, nem sempre a consequência vem de imediato, as vezes pode levar, dias, meses, anos ou décadas para que soframos as consequências de um ato no passado. Outra dificuldade está em relacionar esses fatos no tempo. Podemos sofrer com o efeito de algo que iniciou no passado, mas sem nos darmos conta disso.

Ainda há a questão de a consequências vir antes da causa, ou seja, o problema  (no caso a consequência) já está acontecendo, porém de uma forma latente, apenas aguardando a possível causa para aparecer, muitas vezes é o que costumamos chamar de “a gota d´agua que faltava”.

Pequenas mudanças podem produzir grandes resultados – mas a áreas de maior alavancagem são geralmente as menos evidentes

Obter grandes resultados é algo almejados por qualquer um. Porém o caminho escolhido, nem sempre é o que leva ao tão esperado resultado, isso porque foi aplicado no processo uma solução de baixa alavancagem, ou seja a interferência na situação foi aplicada  superficialmente, sem uma profunda visão estrutural da “coisa” em si. Nesse caso, a mudança foi somente até onde podemos enxergar. Isso pode exigir muito esforço, para se obter um resultado, que poderia ter sido obtido de uma forma mais “inteligente”.

Você pode assoviar e chupar cana – mas não ao mesmo tempo

Quando nos deparamos com situações em que precisamos optar por uma delas, não vemos a possibilidade de as duas andarem juntas. Isso porque analisamos a partir de um raciocínio estático, ou seja temos a ideia fixa de que apenas uma pode ser escolhida.

Porém é possível que a escolha de uma, leve a outra, e ainda elas venham a estar juntas, basta que saibamos escolher corretamente aquela que servirá como ponto de partida.

Dividir um elefante ao meio não produz dois elefantes pequenos

Nos sistemas sociais, muitas vezes é preciso que visualizemos a situação como um todo,  do contrário, se tomarmos apenas parte dela, é provável que jamais tenhamos êxito na saída dessa situação. Isso nos remete a Teoria da Complexidade, ou seja, num determinado momento,  a organização atinge um nível de complexidade onde jamais será possível desmembrá-la a fim de entender suas partes. Nesse momento a organização passa a ter uma existência própria .

Não existem culpados

È natural sempre acharmos um culpado para os nossos problemas. Porém o raciocínio sistêmico nos diz que nós e nossos problemas fazemos parte de um único sistema e ainda que essa a solução disso está no nosso relacionamento com o “inimigo”, ou seja a forma que agimos para obter o resultado, isso implica em tudo o que vimos até aqui, Teoria da Complexidade, Feedback de compensação, transferência de responsabilidades, ou seja nossa perspectiva e forma de solucionar nossos problemas é que são nossos aliados ou inimigos.

Uma mudança de mentalidade

Hoje vivemos numa época em que a quantidade de informações geradas é muito superior ao que conseguimos absorver. Para se ter uma ideia, uma edição no Jornal New York Times contém mais informações do que um ser humano do século XVI seria capaz de absorver em toda a sua existência. O nível de complexidade aumenta a cada dia, e é aí que começamos  a nos perder nesse meio. Porém, existe uma forma sistêmica de organizar nossos pensamentos. É necessário que soframos uma lapidação mental  para que possamos  perceber  as coisas de forma diferente, devemos começar a ver o “todo”, ao invés de apenas partes do dele.

Circularidade

Aprendemos a analisar as situações de uma forma linear, ou seja sem que haja uma relação entre elas, é como se cada fato não tivesse nenhuma relação com o acontecimento anterior, ou provocasse um efeito futuro. É nesse ponto que está o problema, precisamos ver os fatos com outra perspectiva, da perspectiva da circularidade, interligando os acontecimentos, fazendo referências e prevendo futuros resultados. Isso  nos dá a capacidades de resolver muitos problemas de uma maneira extremamente fácil e eficaz. Além de resolver problemas, melhor ainda é evitá-los. A grande dificuldade está em verificar essa circularidade, pois não é uma coisa tão óbvia assim, e se encontra mascarada na linearidade dos fatos.

A guerra fria, onde houve uma demonstração do poderio bélico, foi um belo fato que marcou a história com sua circularidade articulando esse processo. Foi enfraquecida e finalizada a partir do momento que esse círculo sofreu uma reversão, e passou a ter um efeito contrário, com a mesma circularidade, porém levando ao final desse fato.

Feedbacks

Parte fundamental da circularidade, são os feedbacks, são eles que mantém a circularidade dos fatos, permitindo perceber os fluxos da influências nesse meio. Toda influência, causa novas influências e consequentemente sofre suas próprias influências, visto que estamos num círculo. Funcionam como sensores que nos “guiam” nos acontecimentos.

Tudo o que fazemos, possui um feedback, o simples fato de pegar um ônibus para ir ao trabalho, é um ato que requer constante feedback, desde a hora que saímos de casa, os passos que damos pelas ruas até o ponto do  ônibus, o ato de visualizar o veículo se aproximando, verificarmos se realmente é o veículo que esperamos, acompanhar pela janela o local onde desejamos descer, tudo isso resumidamente, são atos de feedback que realizamos todos os dias o dia todo.

Feedback de Reforço

È aquele que começa com pequenas ações, muitas vezes discretas ao ponto de nem percebermos. Mas a medida que o tempo passa essas ações começam a ganhar estímulos que produzem resultado e consequentemente geram mais estímulos, aí começa uma espiral sistêmica que ganha força de maneira exponencial. Vale ressaltar que esse processo pode ser benéfico, como pode também ser prejudicial, ou seja, podemos reforçar os bons acontecimentos como também os maus.

Um exemplo desse feedback podemos ver na seguinte situação, uma comissão paga a um vendedor. Num determinado mês, ele vende  uma certa quantia e ganha um valor em comissão. Esse ganho o estimula a vender mais no mês seguinte, para que sua comissão aumente, e mais ainda no próximos mês. Temos uma situação que estimula a pessoa a praticá-la com mais afinco a cada dia.

Feedback de Balanceamento ou estabilização

Esse feedback visa o equilíbrio natural de um sistema.  Podemos perceber sua ação a partir do momento em que  há um objetivo no comportamento. Esse atua de forma a atingir essa meta , e no momento seguinte estabiliza os mecanismos que atuaram na busca do objetivo. A partir desse momento percebemos que qualquer ação no sentido continuar o processo, embora já tenhamos atingido o objetivo, será anulado, entrará em equilíbrio, é como se definíssemos limites. Para isso é preciso que tenhamos a visão do todo, e não só das partes.

Todo e qualquer sistema, seja ele biológico ou social possui seus feedbacks de balanceamento, se fazem necessário para manutenção do mesmo, pois se não existissem, o colapso seria inevitável.

Tempo de espera

Elemento fundamental nos feedbacks, tanto de reforço quanto de balanceamento, pois todos possuem um tempo de espera entre um ato e um resultado. Capaz de estimular ou até desestabilizar um sistema, o tempo de espera precisa de uma administração cautelosa.

Ao tomarmos um medicamento para aliviar uma dor, existe um tempo de espera entre o momento em que ingerimos o medicamento e o momento em que o efeito começa. Caso tenhamos muita pressa, ingerimos ainda mais medicamentos acreditando que o efeito será mais rápido, poderemos ter graves problemas, e consequentemente nosso sistema biológico, entrará em colapso.

Referência Bibliográfica:  Teoria Geral de Sistemas, Ludwig Von Bertalanffy.

Abraço!

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